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  • CATIA PAMPLONA

Violência entre quatro paredes: rompendo crenças e ciclos!


Fato incontestável é o de que convivemos, dentro das paredes de nossos lares, com a violência doméstica, desde sempre, em suas diferentes formas, tipos ou graus.


Também, de que sua visibilidade, através da Lei Maria da Penha, desde 2006, trouxe à tona essa realidade incômoda, para possibilitar um ponto de virada. Mas, ela está aí, escancarada pelo isolamento social, que a pandemia nos trouxe.


Mas nem sempre entender a violência é fácil, como ela acontece, como evolui, como as pessoas lidam com suas entranhas e mazelas.


Culturalmente os mitos são construídos e disseminados em um contexto social, sem maiores reflexões. Não é diferente com a violência de gênero. Os mais difundidos deles, é o de que as mulheres apanham porque gostam ou porque provocam; de que só acontece quando existe baixa renda e pouca instrução; de que essas mulheres possuem um perfil específico; de que se permanecem com seus agressores, é porque a situação não é grave; ou que é melhor continuarem na relação do que se separarem e criarem os filhos sozinhas, e, talvez, o mais popular: em briga de marido e mulher ninguém mete a colher!


A verdade por detrás dessas falsas crenças, é a de que as vítimas se sujeitam aos seus agressores, por vergonha, medo, falta de condições financeiras, por não contarem com uma rede de apoio que lhes dê suporte para enfrentarem os obstáculos e se libertarem das amarras de seus algozes.


A violência está presente em todos os estratos sociais, não distinguindo classe social, nível de escolaridade, etnia ou religião. Qualquer mulher, em dado período de sua vida, pode sofrer algum tipo de violência. Os filhos que convivem nesse ambiente também se tornam vítimas, com consequências danosas para sua saúde mental, podendo reproduzirem, mais tarde, os atos agressivos presenciados.


A violência extrapolou o seu âmbito doméstico para se tornar um problema de todos. A Lei Maria da Penha pode ser aplicada, mesmo que a vítima não preste queixa. Qualquer pessoa deve meter “a colher”, podendo denunciar de forma anônima o agressor.


Perceber-se inserida nesse contexto é doloroso, para quem convive dia a dia com a violência. A espiral da agressividade possui etapas, que se repetem, com padrões de comportamento. Lenore Walker, psicóloga norte-americana, o descreve: O ciclo da violência se repete novamente em intervalos cada vez menores e em situações cada vez mais graves. [1]


"O ciclo da violência foi descrito por Lenore Walker, psicóloga norte-americana, como um ciclo que se caracteriza por fases, nem sempre fáceis de se detectar, nem sempre ocorrendo da mesma forma com todas as mulheres, e que se mesclam com fatores sociais, culturais e individuais que dificultam a segurança desta mulher (dela, dos filhos, amigos, familiares, vizinhos, etc.)[2]


A primeira fase é a de tensão, onde o agressor fica tenso e irritado por qualquer motivo ou sem motivo aparente, tendo acessos de raiva, podendo também destruir objetos e humilhá-la; a segunda fase é a do incidente em que a agressão (física ou psicológica) é mais forte, geralmente sob a alegação de que o homem tem que dar uma lição à mulher ou que ele perdeu o controle; a terceira fase apresenta uma trégua, onde o homem se diz arrependido e promete que não vai mais agir assim. Ela acredita (ou se esforça para acreditar, por necessidade e pressão social) e retoma o relacionamento, visto que ele começa a demonstrar carinho e promete buscar ajuda."


Nessas três fases: aumento da tensão, ato de violência e lua de mel, a mulher sofre doses diárias de vários tipos de violência, que vão desde a psicológica, física, moral, sexual ou patrimonial.


É comum vítimas se colocarem como culpadas pela própria situação, sentirem-se responsáveis pelas atitudes do abusador, desqualificadas perante seus familiares, diminuídas em sua autoestima, incapazes de alteraram seu comportamento.


Como desatar esses nós? A conscientização é imprescindível. A mudança ocorre primeiro internamente. Identificar os sinais de violência na relação doméstica, familiar, até então despercebidos, minimizados ou normalizados pela própria mulher, entender seu funcionamento, buscar e aceitar ajuda profissional para o auto fortalecimento.


Campanhas publicitárias, redes sociais, são de vital importância, na divulgação de suas características e efeitos, auxiliando não só as mulheres, mas também os homens, a entenderem a dinâmica da violência. Exemplo disto é o programa “Sinal Vermelho”, implantado recentemente, que consiste em um “X” pintado em vermelho na palma da mão da mulher ameaçada. Isto significa um pedido de socorro, que aquela pessoa está em perigo, e necessita de ajuda com urgência.


Novos padrões de conduta, que possam substituir os antigos, só serão implementados socialmente, através da conscientização da violência doméstica e seus efeitos nefastos dentro de quatro paredes.



Catia Pamplona

Advogada

[1] Walker, Lenore. The Battered Woman. Harper and Roww, 1979 [2] Ciclo da Violência Doméstica Contra a Mulher – Material elaborado pelo Núcleo de Estudos de Violência Doméstica, Familiar e de Gênero da Escola da Ajuris RS

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